A implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) como estratégia para conciliar restauração do Cerrado, produção de alimentos e geração de renda esteve entre os destaques da visita técnica realizada ao território quilombola Kalunga. Além da equipe do Projeto Bioca, a agenda reuniu representantes do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), da Associação Quilombola Kalunga (AQK), lideranças locais e famílias beneficiárias para conhecer de perto as experiências desenvolvidas no território.
Gerente da Iniciativa Floresta Viva no FUNBIO, Ana Cecília Gonçalves destacou a importância de conhecer as ações desenvolvidas pela AGROBIO dentro do território Kalunga e a relação estabelecida entre os SAFs e os modos tradicionais de produção. “É muito importante estar aqui visitando o projeto da AGROBIO na comunidade quilombola Kalunga, em um território que tem mais de 80% de vegetação remanescente para a proteção do Cerrado. Estamos conhecendo áreas implementadas com Sistemas Agroflorestais que consideram o conhecimento ancestral dessa comunidade, inclusive a partir das roças de toco”, ressaltou.
Para o coordenador-geral do BIOCA, Marcelo Mendonça, os SAFs representam uma experiência capaz de demonstrar, na prática, que a recuperação de áreas pode caminhar junto à produção de alimentos e ao fortalecimento das famílias.
Segundo ele, a experiência desenvolvida pelo projeto contribui para ampliar a discussão sobre a conservação do Cerrado, associando a restauração à realidade econômica e social das comunidades. “Quando restauramos e adotamos práticas conservacionistas de solo, também criamos condições para produzir comida. Isso tem gerado uma expectativa muito positiva, porque associa a necessidade de manter o Cerrado, as nascentes e as matas ciliares à produção de alimentos saudáveis. É o que chamamos de restauração ambiental inclusiva”, explicou.
A analista de projetos do FUNBIO Maria Affonso Penna destacou a mobilização das comunidades e os resultados observados durante as visitas. “Vimos uma grande participação nas atividades e uma mobilização social muito forte. Também conseguimos observar o sucesso dos SAFs, com as mudas crescendo de forma satisfatória e casos em que as pessoas já estão tendo a primeira renda vinda dessas áreas, mesmo sendo tão recentes. É muito satisfatório ver um Cerrado em pé que também vai gerar renda, qualidade de vida e contribuir para a segurança alimentar dessas comunidades”, afirmou.
Inclusão
Vice-presidente da Associação Quilombo Kalunga (AQK), Viviane Farias ressaltou que os resultados observados também ajudam a despertar o interesse de outras famílias. Para ela, o processo já em andamento demonstra concretamente as possibilidades oferecidas pelos SAFs. À medida que as experiências avançam, outras famílias passam a enxergar a implantação desses sistemas como uma alternativa para seus próprios espaços produtivos. Essa multiplicação das experiências é uma das perspectivas do trabalho realizado no território. Os SAFs funcionam como unidades de referência para agricultores interessados em diversificar a produção e adotar práticas associadas à conservação do Cerrado.
Produção e renda
Essa perspectiva aparece na experiência de Bernardino da Rocha Júnior, técnico do BIOCA e também beneficiário de uma unidade de SAF. “Meu objetivo com o SAF é ter uma unidade com muita diversificação, com plantas nativas, outras espécies e produção de grãos. Quero tirar o sustento da família e também conseguir produção para complementar a renda. E fazer disso um modelo para outras famílias”, contou.
A passagem pelo território Kalunga evidenciou uma das propostas centrais do BIOCA de fazer com que a restauração ambiental esteja conectada às pessoas que vivem no território. Nesse processo, recuperar áreas não significa apenas recompor a vegetação, mas criar condições para que as famílias produzam alimentos, diversifiquem suas áreas e fortaleçam sua autonomia.
Sobre o BIOCA
O BIOCA é uma iniciativa da Associação Nacional para o Fortalecimento da Agrobiodiversidade (AGROBIO), com financiamento da Petrobras e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio do edital Corredores de Biodiversidade – Floresta Viva, com gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO).