Rede Sementes da Vida

Projeto Bioca realiza oficina de bioinsumos e fortalece agroecologia em Alvorada do Norte

A equipe do projeto Biodiversidade e Cadeias Produtivas (Bioca) realizou nesta terça-feira (16) para mais uma ação de fortalecimento da agroecologia no Nordeste Goiano. A atividade aconteceu no município de Alvorada do Norte, na residência de dona Maria de Fátima Pereira, área onde está sendo implantado um Sistema Agroflorestal (SAF) como parte das ações do projeto. A iniciativa reuniu beneficiários, técnicos e parceiros locais em uma oficina prática sobre produção e uso de bioinsumos.

De acordo com o professor Marcelo Mendonça, coordenador do projeto, a atividade integra uma agenda contínua de formação das famílias beneficiárias dos SAFs, com foco no manejo agroecológico. “Essa área é uma APP, às margens do Rio Corrente, que está sendo restaurada pelo projeto. As oficinas fazem parte do processo de preparar os beneficiários para o manejo adequado dos sistemas agroflorestais, a partir dos insumos que eles já têm em suas próprias realidades”, explicou.

Durante a oficina, foram apresentados e preparados bioinsumos utilizando materiais simples e disponíveis no território, como folhas de mamona, urina de vaca, leite cru, folhas de neem e de fumo. A equipe também apresentou a cartilha de bioinsumos do projeto, com diferentes receitas, algumas delas elaboradas coletivamente durante a atividade. “A ideia é valorizar os conhecimentos, os saberes e os fazeres que essas famílias já possuem, ao mesmo tempo em que trazemos informações técnicas para que elas possam fazer um manejo mais eficiente dos SAFs”, destacou Marcelo Mendonça.

As oficinas de bioinsumos têm como objetivo fortalecer a autonomia das comunidades na produção de defensivos naturais e biofertilizantes, reduzindo a dependência de insumos externos e promovendo práticas que respeitam a biodiversidade local. A proposta busca apoiar o controle de insetos e microrganismos que comprometem a produção de alimentos, além de estimular a vida no solo, elemento central para a sustentabilidade dos sistemas produtivos. A abordagem dialoga com os princípios defendidos pela pesquisadora Ana Primavesi, para quem um solo vivo e saudável é a base para plantas e pessoas saudáveis.

A metodologia adotada é participativa e parte das demandas reais das famílias agricultoras. Ao longo da atividade, foram trabalhados conceitos básicos sobre o que são bioinsumos, as diferenças entre defensivos naturais e biofertilizantes e a apresentação de cinco receitas práticas, com orientações detalhadas sobre preparo e aplicação. O processo busca construir, de forma coletiva, soluções viáveis, acessíveis e sustentáveis para o fortalecimento da produção agroecológica.

O SAF implantado na propriedade de dona Fatinha carrega também um forte significado simbólico e ambiental. Segundo ela, a escolha da área foi motivada por um sonho antigo e pelo desejo de recuperar um espaço profundamente degradado. “Essa área aqui foi muito explorada há 30, 40 anos, quando retiraram o cascalho para fazer o asfalto. Eu ficava muito triste de ver tudo isso sem vida. Sempre sonhei em construir um SAF, mas não sabia por onde começar”, contou a proprietária.

Hoje, a área já apresenta sinais de regeneração, com o plantio de espécies como baru, pequi, tamarindo e outras típicas do Cerrado. “Mesmo depois de terem tirado tudo, a terra vai regenerando. Eu sou apaixonada por isso. Quero produzir o que vou consumir, para minha família, para doar e também para vender. A ideia é tornar essa área uma referência do que é possível fazer no Cerrado”, afirmou dona Fatinha.

Para o professor Marcelo Mendonça, o local demonstra, na prática, o potencial da restauração ambiental aliada à produção de alimentos. “Aqui foi retirada a vegetação, ainda assim, é possível recuperar. A restauração ambiental é isso: mostrar que áreas degradadas podem voltar a produzir vida, alimento e água”, ressaltou.

A ação conta com o apoio da Prefeitura de Alvorada do Norte, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Presente na atividade, o secretário Leonardo Victor Carvalho destacou a importância do projeto para o município. “O Bioca chegou em boa hora. Logo no início da gestão, tivemos contato com o projeto e entendemos que o SAF é uma solução ambiental e produtiva. Ele permite produzir alimento, gerar renda e, ao mesmo tempo, manter a sustentabilidade”, afirmou.

Segundo o secretário, os sistemas agroflorestais representam uma alternativa concreta frente ao avanço da degradação do Cerrado. “Quando a gente planta Cerrado, a gente planta água. A vegetação nativa favorece a recarga dos aquíferos e contribui para a segurança hídrica. Aqui estamos mostrando que é possível manter o Cerrado em pé, gerar trabalho, renda e inclusão produtiva”, destacou.

A experiência desenvolvida em Alvorada do Norte reforça a proposta do projeto Bioca de integrar restauração ambiental, agroecologia e fortalecimento das comunidades rurais, demonstrando que existem caminhos sustentáveis e ancestrais de uso da terra que vão além dos monocultivos e contribuem para a conservação do bioma Cerrado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima