Rede Sementes da Vida

Cozinhas solidárias fortalecem redes de acolhimento e formação comunitária em Pernambuco

Mais do que espaços de preparo e distribuição de alimentos, as cozinhas solidárias de Pernambuco têm ampliado seu papel nas comunidades ao se firmarem como centros de formação, acolhimento e troca de saberes. A experiência recente, de formações realizadas com equipes e participantes da Cozinha Solidária Afetivas Marmitas Saudáveis, em Olinda (PE) evidencia a potência dessas iniciativas na construção de redes de apoio e fortalecimento social.

Com temas como Práticas Agroecológicas e Gestão de Resíduos; Nutrição e Alimentação Saudável  e Gestão e Planejamento, as atividades formativas envolveram tanto integrantes da própria equipe quanto participantes de outras cozinhas e jovens da comunidade. A primeira formação contou com a participação de companheiras de outras iniciativas, enquanto as demais foram voltadas ao público interno da Cozinha Afetiva e às jovens defensoras do território.

A coordenação das formações ficou a cargo de Ivana Kelly, que também atuou como facilitadora em um dos encontros. As atividades foram conduzidas ainda por Joana Alves, Keila Marques e Hallana Dandara, que trouxeram diferentes abordagens para temas comuns, sempre com foco nas vivências das mulheres. 

Segundo Ivana Kelly, a cozinha solidária precisa ser compreendida para além de sua função básica. “Não é só um espaço de preparo de alimentos, mas um espaço de acolhimento e responsabilidade, onde a gente pode falar, opinar, refletir e aprender”, destaca.

Esse entendimento é compartilhado por quem vive o dia a dia das cozinhas. Cozinheiras como Thaís Valéria, Beatriz Maria e Rozenilda Galdino relatam que o impacto das formações se reflete diretamente na forma como o trabalho é desenvolvido junto à comunidade.

Para elas, a cozinha se tornou um espaço de escuta ativa, especialmente para públicos vulneráveis como jovens e idosos. “Aqui a gente não só cozinha. A gente acolhe, conversa, escuta. Tem rodas de conversa onde todo mundo ensina e aprende”, relata uma das participantes.

As rodas de conversa, aliás, são apontadas como um dos principais instrumentos de transformação dentro das cozinhas. É nesses momentos que surgem debates sobre desigualdades sociais, com destaque para questões de raça e gênero. Um dos temas abordados nas formações foi a desigualdade alimentar entre mulheres brancas e mulheres negras, com base em estudos que evidenciam essas disparidades.

A abordagem dos temas foi adaptada em cada encontro, mantendo o foco na realidade das participantes e incentivando a reflexão coletiva. “É muito gratificante ver que as pessoas se sentem à vontade para falar e opinar. Isso não é fácil, principalmente em espaços onde muitas vezes elas não são ouvidas”, pontua Thaís Valéria.

Além do aprendizado técnico e das discussões sociais, as formações também contribuem para o fortalecimento das redes comunitárias. Para Beatriz Maria, o impacto vai além do imediato. “O papel da cozinha solidária não é só alimentar. A gente acolhe, escuta e multiplica conhecimento. Isso transforma”, afirma.

As cozinhas solidárias têm se consolidado, assim, como territórios de resistência e construção coletiva, onde o alimento é apenas o ponto de partida para algo maior: o fortalecimento de vínculos, a valorização das vozes locais e a promoção de justiça social nas periferias pernambucanas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima